País tem pelo menos 599.204 crianças até 10 anos sem certidão de nascimento.
RIO
DE JANEIRO, Brasil – Pablo Alexandre Cunha da Silva tem 28 anos e nunca
foi registrado.Por isso, não pôde frequentar a escola. Sem instrução e
documento, é obrigado a aceitar pagamento abaixo do salário mínimo
consertando bicicletas. Ferido recentemente em um acidente de ônibus,
Silva não pôde sequer receber a indenização da empresa de transporte
responsabilizada pelo acidente. E ele tampouco consegue tratamento
médico para cálculo renal. “Só prestam socorro de emergência no
hospital”, lamenta Silva. Mas, em 17 de outubro, Silva deixou para trás
esse triste anonimato. Assim como outras centenas de moradores, Silva
tirou uma certidão de nascimento pela primeira vez no mutirão promovido
pela Comissão Judiciária para a Erradicação do Sub-registro de
Nascimento, da Corregedoria Geral da Justiça do Estado do Rio de
Janeiro, em Nova Iguaçu.
O município é um dos 14 que formam a
Baixada Fluminense, considerada uma das áreas mais pobres e violentas
do estado do Rio. Em 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) incluiu o número de crianças até 10 anos sem registro
de nascimento no censo. São 599.204 –1,86% da população nessa faixa
etária. Desse total, 167.532 têm até 1 ano de vida, representando 6,7%
das crianças nessa idade. O grupo sem certidão até o terceiro mês do ano
seguinte ao nascimento é classificado como sub-registro. “O número
(real) é muito superior porque o IBGE não contabilizou a população
adulta”, diz Raquel Chrispino, Juíza da 1ª Vara de Família de São João
de Meriti, outro município da Baixada Fluminense. Raquel também é
coordenadora da comissão da Corregedoria que promove o mutirão dentro do
Projeto de Erradicação do Sub-Registro no estado do Rio. “Às vezes
recebo pessoas de 70 anos de idade atrás do registro porque querem, pelo
menos, ser enterradas com o próprio nome e não como indigentes”, conta
Raquel.
A falta do registro civil, necessário inclusive para
atestar a morte, impede a pessoa de ter acesso a serviços de saúde,
escolas, benefícios trabalhistas, sociais, além de não poder votar.
Com
campanhas, mutirões como os da Justiça do Rio e a melhoria dos serviços
dos cartórios, o Brasil vem conseguindo reduzir o número de pessoas sem
registro. Em dois anos e meio, já foram realizados oito mutirões no Rio
de Janeiro e atendidas 9.000 pessoas. Dessas, 2.500 procuraram o
serviço para emissão da primeira certidão de nascimento. “O percentual
de sub-registros no país já foi de 12%, em 2007, e agora é de 6,7%”, diz
Ricardo Chimenti, juiz auxiliar da Corregedoria Nacional de Justiça,
órgão ligado ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
CNJ tem campanha nacional para incentivar registro
Em
parceria com a Secretaria Especial de Direitos Humanos, a Corregedoria
coordena uma campanha nacional em prol do registro de nascimento e
documentação básica.
Desde o lançamento da iniciativa, em 2009, o
CNJ instituiu um modelo mais seguro de certidão de nascimento, feita em
papel da Casa da Moeda para evitar falsificações.
Também foi
criado um número de matrícula por certidão (Código Nacional de Serventia
– CNS), que garante a rápida localização do cartório onde o registro
foi realizado.
Das 615 maternidades públicas do país, 179 agora
têm um espaço implantado pelo CNJ onde um funcionário treinado do local
ou de um cartório pode fazer o registro da criança ainda no hospital.
“Em alguns lugares, se a criança não é registrada na maternidade, é muito difícil que seja no futuro”, acrescenta Chimenti
Os maiores percentuais de sub-registros estão na Região Norte.
O Amazonas lidera, com 20,98%, seguido de Roraima, com 19,79%, e Pará, com 19,42%, segundo o IBGE.
“No
Norte, tudo é longe. (Em algumas áreas) a locomoção é via barco e por
igarapés”, explica Paulo Risso, presidente da Associação dos
Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil). “Os prefeitos devem
mobilizar seus agentes na área social para localizar essas pessoas.”
O
registro gratuito universal é garantido pela Lei nº 9.534/97. E o
registro tardio, que antes dependia da abertura e da tramitação de
processo judicial, agora é agilizado no próprio cartório.
“Mas a
população ainda acha que tem que pagar ou que está sujeita à multa
depois de um tempo sem registro, e não busca o serviço”, explica Raquel.
Criado
pelo padrasto, João Batista de Souza, desde um ano de idade, David
Anderson Rangel (centro) teve o nome de Souza adicionado a seu registro
de nascimento em 17 de outubro no Rio de Janeiro.
A falta de registro dos pais ou a perda desse documento pode provocar o sub-registro das gerações seguintes, completa Raquel.
“Tem
aqueles que perderam a certidão há 30 anos e nunca tiraram uma segunda
via”, diz Raquel. “O mutirão também atende esses casos porque a pessoa
nessa situação tem a carência semelhante ao da não registrada.”
Sebastiana
Eunice Vicente, 51, conhece bem os transtornos provocados pela perda de
documentos. Sem a documentação pessoal, perdida numa enchente,
Sebastiana não conseguiu registrar a filha, Michelle Cristina Vicente,
19 anos.
E o problema atravessa gerações: Michelle agora tem duas filhas, ambas sem certidão de nascimento.
“Michelle
precisa do registro para levar as meninas ao médico e colocar na
creche”, conta Sebastiana enquanto a família é atendida no mutirão em
Nova Iguaçu.
Pais ausentes agravam problema
O
não reconhecimento da paternidade é outra causa do sub-registro,
completa Raquel. “A mulher fica esperando o pai porque tem vergonha de
registrar o filho sozinha”, explica a juíza. “Elas não sabem da
existência de uma legislação que já prevê que o próprio Ministério
Público promova a investigação de paternidade.”
A Lei 8.560/92
determina que, no momento do registro, apenas com o nome da mãe, o
cartório envie à Justiça as principais referências do suposto pai para
que o mesmo seja localizado e diga se quer assumir a paternidade. Para
os que não quiserem assumir suas supostas responsabilidades, poderá ser
solicitado exame de DNA.
Justamente devido à relação entre o não
reconhecimento de paternidade e a falta de registro civil, o CNJ
resolveu ampliar o foco da campanha. Em agosto de 2010, lançou o projeto
Pai Presente, que estimula os homens a reconhecerem seus filhos em
cartório.
Em 2009, o país tinha 4.850.000 crianças e adolescentes
de até 18 anos sem o nome do pai na certidão de nascimento, segundo o
Censo Escolar realizado pelo Ministério da Educação (MEC). “Além do
problema de natureza psicológica, esse indivíduo pode ter problemas em
questões de heranças e recebimento de pensões”, diz Chimenti.
O mutirão de Nova Iguaçu também atende aos interessados no projeto Pai Presente.
Aos
17 anos e no sexto mês de gestação, Lílian Ferreira do Carmo foi ao
mutirão para tirar sua primeira certidão de nascimento. Orientada no
local, também decidiu que iria procurar a defensoria pública para
incentivar o pai da criança a assumir a paternidade e ajudar na
gravidez. “Quero poder registrar o meu filho e dar a ele tudo que não
tive”, diz Lílian.
O motorista de ônibus aposentado João Batista
de Souza, de 60 anos, aproveitou a iniciativa em Nova Iguaçu para
incluir seu nome no registro de nascimento do enteado, David Anderson
Rangel, 31. João tornou-se responsável por David desde seu primeiro ano
de vida, quando começou o relacionamento com a mãe do rapaz, Maria de
Lourdes Rangel, 52. “Estou muito feliz. Quero acrescentar o nome do avô
nas certidões dos meus filhos”, afirma David.
Fonte: Site Infosurhoy